E ao terceiro dia subiu ao céus... Vá-se lá saber porquê.
Para o crente católico a Páscoa muitas vezes é maior motivo de festa do que o Natal. Se pensarem sobre isso, para a Páscoa o religioso prepara-se durante 40 dias e pela Páscoa deixa de comer carne, de falar mal dos outros, vai a missa todas as semanas, confessa-se. Enfim, 40 dias de ser exactamente o crente católico que não foi no resto do ano, até porque a consciência católica não esquece que o pobrezito morreu por nós e pelos nossos pecados.

Análise dos motivos que levaram Cristo à cruz e cota de responsabilidade humana no mesmo.
- Cristo pregava aos homens, transformava água em vinho, partilhava pão. Nos dias de hoje não seria motivos para inveja e não o levaria à cruz com certeza contudo, sendo estes os motivos... Ele transforma água em vinho, dá-a de beber ao povo e só lhes dá uma lasca de pão para o jantar. O povo bebeu e embebedou. Depois prega, que é como quem diz, dá-lhes um sermão. Ele há homens com alcool a mais que já mataram por menos. Mentira? Não me parece. - Responsabilidade humana 10% (por não saber dizer que não a um copo de vinho)
- Cristo dizia ser filho de deus. Ele houve quem o achasse louco mas também por aí estamos fartos de ver maluquinhos a dizerem dispautérios na rua, no supermercado, no autocarro e até mesmo em casa e apesar de termos alguma vontade de os matar para não termos que voltar a ouvi-los, são poucas as vezes que o fazemos. - Responsabilidade humana 20% (por não aceitarmos a diferenca de forma paciente)
- Cristo confiou em Judas - Responsabilidade humana 0% - Já devia saber que não se pode confiar em gente que quer ter o papel principal na história.
- Cristo andava a molhar toda a gente com a desculpa que os queria batizar e não contente foi ensinar a facanha ao amiguinho Batista. Ora isto de brincar com água tem piada mas tudo o que é demais enjoa. - Responsabilidade humana 0% (ninguém o manda ser gozão)
- Cristo serviu uma janta para doze amigos intímos e o único espírito que andava por ali era mesmo o Espírito Santo. Não contente puxa de um copo de vinho, que já todos imaginavam que seria a única bebia a rondar por ali, acrescentando um - 'Tomai todos e bebei, este é o meu sangue que será derramado por vós.' Ora estava ou não estava a pedi-las? - Responsabilidade humana 0% (péssimo hoster com sentido de humor no mínimo estranho)

Bem, devo dizer-vos que até então a minha Páscoa nada teve de santa. Em tempos aúreos de educacão católica os 40 dias de 'ramadão' católico eram seguidos à risca sem um naco de carnica. Isso poderia até vir a ser um grande sacrifício não fosse eu vegetariana.
Sexta-feira que era santa, lá íamos todos ver o encontro da Virgem com o filho. Momento solene. A crianca católica corria de um lado para o outro, ria-se e gritava com os amigos, a mãe católica praguejava 'Raios partam a merda do moco que nunca está quieto.' Como disse, solene. Depois comia-se com a família. Sábado fazia-se muito pouco mas também no sábado ninguém sabe ao certo o que aconteceu, foram os dias em que todos aguardavam a ascencão. Ao 3o dia subirei aos céus, ao 3o dia subirei, e todos ficaram a aguardar a facanha sem se mexerem. Típico, ficar horas à espera de um espectáculo pirotécnico que só dura 5 minutos. Mas assim foi, Domingo, esse sim um dia em cheio.
Primeiro acorda-se cedinho e lá se vai à missa, em jejum para poder comer o corpo de Cristo. Não chegou matá-lo, há que come-lo. Depois da missazinha corre-se para casa para deixar tudo pronto para receber o Senhor. O Senhor não, os senhores. São muitos e vêm a carregar uma cruz na qual o Cristo já está pregado. Esta ao contrário da que Cristo carregou é em prata e formato bolso, o que explica o número elevado de gente que é preciso para a transportar de porta em porta. Assim que ele chega lá abrem a porta ao Senhor e a mais nova da família tem que ler um salmo para receber o Excelentíssimo (oui, oui c'est PAulá). Lá lhes faco a vontade, gracas a Deus, e assim que todos dizem amén, espetam-me com a bendita cruz no nariz para que eu possa demonstrar o meu amor a Cristo com um beijo. Viro a cara e não beijo, o avô passa-se com a reaccão, os sacristões lá vão magoados e o pai que estava ansioso para arranjar problemas com o pai dele desde que a Páscoa comecou lá defende a crianca dizendo - 'Ela tem razão ainda apanha alguma doenca.'
Tá o circo armado, a mãe diz-me entre dentes 'custava alguma coisa teres beijado a cruz' para evitar aquela cena. Eu posso responder de duas maneiras, 'Não sei, talvez um herpes labial.' ou 'Quando é que se almoca?'. Escolho a segunda e assim se muda de assunto e vamos todos para a mesa. Cristo já ascendeu, já se pode comer carne e assim o fazem como se não houvesse amanhã. Depois de satisfeitos é hora de voltar à vida normal. Cristo já está no céu, à beira do Pai, onde ele pertence e nós voltamos para casa, longe do pai, que também é onde pertencemos.
Como o pai bebeu demais e a mãe tem trauma quem conduz é a crianca erege. Lá vai por filas intermináveis de trânsito ao som de relatos da bola como se isso a ajudasse a manter acordada. No fim tudo corre bem, quando corre e o regresso a casa é marcado por sono profundo para esquecer a Páscoa e poder-se voltar à vida normal, que só depois do fim de semana é que nos damos conta que é preferível a qualquer feriado ou dia santo.
Num país luterano as diferencas são poucas. Também se vai para o campo, bebe-se como se não houvesse amanhã, quem come carne comeu, quem não comeu que comesse. Faz-se sauna, dorme-se, faz-se sauna e bebe-se outra vez. Ao fim de um dia e uma noite todos se dão conta que o campo não é para todos e voltam à cidade na esperanca de recuperar. A intencão era relaxar mas à noite já estamos num bar outra vez. Devido ao mau humor de alguns vai-se para casa cedo e dorme-se por mais de 12 horas. O Domingo é o dia tal. Santo que só ele vai-se para um santo café relaxar mas acaba-se num bar a ouvir os problemas matrimoniais da amiga. Não contente continua-se entre cidra, cerveja, gin e cigarros até se perder o último autocarro de regressa a casa. Dorme-se num canto qualquer na casa de alguém até haver transportes outra vez. A grande diferenca é que aqui, e como os luteranos já sabem que as festas cristãs precisam de pelo menos um dia de descando para recuperacão, Segunda-feira também é feriado.
Lá se vai então para o religioso jogo de snoker que acontece quando não há mais nada que fazer, volta-se para casa cedo e dorme-se o sono dos justos. Como se pode ver a Páscoa luterana em pouco difere da Páscoa católica, sendo que a maior das diferencas reside no facto de aqui não haver remorsos nem culpa por algo que aconteceu à muitos anos. Os romanos cairam no erro de matar um judeu e têm que ser lembrados disso todos os anos, os alemães mataram uns quantos e não é que continuemos a remoer muito no tema.
No fundo o que eu quero dizer com esta conversa toda é que Cristo sofreu e morreu por nós. Pois é caro amigo, para a próxima já sabes, mais valia estares quieto.