Lembram-se das Conversas com Estranhos?
Essa bela rubrica que eu criei faz algum tempo, que usei uma vez e nunca mais lhe toquei, chega hoje numa forma que pode ser muito mais útil e interessante que a primeira.
Apresento-vos "Conversas entre Estranhos"
O diálogo que se segue realizou-se num Hospital... chamemos-lhe Sta Maria, entre uma utente da Santa Casa da Misericórdia disfuncional que é o nosso sistema de saúde, a Juliana, e uma funcionária pública que prefere continuar no anonimato.
Juliana: Olhe eu gostava de marcar uma consulta...
F.P.: Espere um momento por favor. Então o Doutor Nogueira (nome fictício) já deixou a mulher? Ainda ontem ele passou por cá com o menino e pareciam uma família tão feliz.
Ju.: Olhe desculpe...
F.P.: Já sei, quer marcar uma consulta. Esta gente não tem paciência nenhuma. Só há vagas para Janeiro mas só para o mês que vem é que pode marcar consultas para o mês de Janeiro.
Ju.: Sabe é que estou com uma dor de ouvidos grande e se pudesse ser atendida o mais cedo possível agradecia.
F.P.: Nesse caso amanhã às 11:00. (A pessoa que transcreveu esta conversa saltou já várias partes do diálogo para não aborrecer o leitor.) Cartão de Utente.
Entretanto vários utentes aproximam-se do balcão exibindo pápeis que ela diz não pertencerem ali mas à central de consultas. Claro que este trabalho requer ser dito um a um porque é sabido que o povo português não sabe ler e nunca decifraria uma mensagem escrita que avissasse que colocação de senhas em receitas só na central de consultas.
F.P.: Diga-me então o seu nome. (Que logicamente não está escrito no cartão de utente de Juliana que a senhora F.P. já tem em seu poder.)
Ju.: Juliana Matias.
F.P.: Ora Jeeeee. (enquanto prime a tecla J com o dedo indicador da mão direita em queda lenta vertical direccionada ao teclado) ... Juliana é com U ou com O?
Ju.: Com U.
F.P.: Uuuuuuuuuuuu. Liiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii. AAAAAAAAAAA. na. E o seu sobrenome?
Ju.: Matias.
F.P.: MMaaaaaa. teos.
Ju.: Matias.
F.P.: Ai desculpe, ouvi mal. Olhe vai ter que ser com o Doutor Nogueira. Sabe ele agora já não tem família tem mais tempo para atender. Ele é um bocadinho bruto mas é muito bom médico. Já conhece o Doutor Nogueira?
Ju.: Não, ainda não tive o prazer.
F.P.: Ai filha coitado, é metade do homem que era. Mas aquela tipa nunca me enganou, se visse a forma como ela olhava para o Doutor Martins. Não era flor que se cheirasse.
Ju.: É preciso mais alguma coisa?
F.P.: Não querida pode ir. Mas não se esqueça que tem que estar aqui antes para eu a poder registar no computador, porque senão fica sem consulta. O guichet só abre apartir das 9:00.
Entretanto, na fila que crescia enquanto o diálogo anterior acontecia, a autora deste blog encontrava-se numa situação que poderia dar origem a uma outra rubrica de nome "Conversas que deveriam ter acontecido"
Paula é lentamente empurrada pelo o utente de trás que não consegue manter a tal distância socialmente aceitável que deveria ser lei protegida pela constituição.
Paula.: A menos que a senhora tenha poderes mágicos que façam com que o meu corpo se desmaterialize, não vale a pena empurrar-me contra o balcão para ficar mais perto, porque quer perto quer longe do balcão, continuará a ter-me à sua frente.
Este diálogo termina aqui, porque apesar de se adivinhar que Paula receberia um par de estalos ou gritos, ou no mínimo um antipática para os que são mais zelosos, não se pode saber com certeza qual seria a reacção da utente que a empurrava, a este comentário. Talvez um dia quando a autora deixar de ser uma tangas e comece a reagir em tempo certo, se possa completar este diálogo e passá-lo para uma categoria onde ele realmente acontece.
De qualquer forma fique atento a sua nova novela de terça de manhã, "Hospitau di Santa Mária".
Ele não há como idas a hospitais ou segurança social para se ter assunto para bloggar.