13.11.06

Canta para ti, de preferência baixinho.



Se quisessem interpretar o título deste post porderiam concluir que eu estaria a falar daquelas pessoas que nasceram com a música no coração, que todas as noites antes de adormecerem dizem para si mesmos "Cantarei até que a voz me doa" com tom sofrido de fado e que acreditam que toda a sua vida está repleta de coincidências (a palavra não é bem coincidência, é sinal), repleta de sinais que lhe dizem que foi feito para a música. Poderia ser, mas não é isso que me traz aqui.

Também poderiam interpretá-lo como a estória da jovem rapariga que se inscreveu no clube de teatro amador de uma escola C+S de subúrbio, e um belo dia, no intervalo do ensaio da leitura de um poema de Pessoa, a jovem pessoa dirigi-se à casa de banho e após lavar as mãos, passa-as molhadas no seu rosto e olha-se ao espelho com a sensação e expressão que essa foi a primeira vez que realmente se viu, apoia as mãos no lavatório, olha-se de novo ao espelho e diz em voz alta "O meu sonho é ser actora". Depois desse desabrochar de perspectiva de carreira profissional, ao qual chegou sem a ajuda de nenhum teste psico-técnico, começa a levar o seu sonho tão a sério que transforma a sua vida num guião da TVI no qual ela, tal qual mocinha desprotegida engravida mais cedo, vendo-se obrigada a cancelar todos os seus grandes sonhos. Poderia ser este o assunto, mas também não é disto que eu vou aqui falar.

O que me traz por cá hoje é o adorável novo "concurso" da TVI que atende pelo nome de Canta por Mim. A quem não conhece, eu explico as regras. Há a anfitriã/apresentadora Teresa Guilherme (ou será Júlia Guilherme?, não. Teresa Pinheiro. Não também não é isso, Júlia Pinheiro) É a Julia Pinheiro. "apresentadora/anfitriã/pseudo-intelectual/nova-gente" que abre o espectáculo com intenções semelhantes às da Catarina Furtado mas "bem mais vestida/bem mais mal vestida/bem menos despida". A Teresa (ai já me enganei outra vez) a Júlia apresenta as regras do jogo e os concorrentes. Há de quase tudo neste circo temos o "palhaço-rico/apresentador/ex-cozinheiro/cantor", o "palhaço-muito-rico/mulher-do-director-do-canal/ex-cantora/jornalista/cantora", o "palhaço-não-tão-rico/actor/actriz/cantora/cantor", temos o "palhaço/desocupada/mãe-de-duas/ex-mulher-de-ex-primeiro-ministro-de-ex-presidente-da-câmara/cantora", temos a "sexóloga/cantora", para compor o ramalhete. A este grupo restrito de pessoas, podemos chamá-los artistas, que eles gostam e até estão acostumados. Junto a cada uma dessas personagens temos os acompanhantes que são normalmente cantores/as sendo que alguns compõem e outros também representam. Depois temos o palhaço-pobre, ou pronto, para não me acusarem de maldade, o pobre, que narra a sua vida muitas vezes realmente triste, muitas vezes apenas igual a de qualquer português que viva com um ordenado médio-baixo.

Acho que já apresentei todos... pois bem o pobre narra a sua história, o palhaço rico chora, dá a mão à Teresa e recebe carinhos do seu "acompanhante/macaco-de-imitação". Felizmente recompõe-se do desgosto, levanta-se normalmente exibindo belas roupas, ou então não, e vai cantar para o palco com o seu acompanhante. Depois há o juri. O juri avalia, como é suposto um juri fazer. Há o "maestro/já-te-reformavas", há a "o-que-é-que-ela-faz-mesmo/coluna-social" e há o "holandês/homem-rico/produtor/ex-marido-da-Luísa-Lencastre".

Agora vou falar do que me traz realmente aqui. Eu já vi o programa, gostei muito mas o que eu gostava mesmo de ver neste programa era o sr./maestro reduzir o discurso e dizer com toda a sinceridade "a menina canta mesmo mal, onde é que eu deixei a bengala. Cai neve em Nova Iorque faz sol no meu país, porque eu já fiz um programa com a Bárbara. Ai que calor que está aqui. A menina já que está aí de pé podia ir buscar-me um copo de água. O que é que eu vinha aqui mesmo fazer? Quem são estas pessoas? Porque é que está tanta gente a olhar para mim? Tome lá um 6(nove)". Gostava de ver a outra dizer "Já sei porque me chamaram para avaliar a sua cantoria, deve ser pelas selecções maravilhosas que eu faço para os CD's de Natal da Caras. Acho que cantou assim olhe, bem, mais ou menos, podia ser melhor, mal. Cantou mal mas não fique triste minha querida que continua chiquérrima, gosto muito de a ver com esse vestido. Comprou onde? Olhe vou ter que dar 10 a esse vestido. É o máximo" e gostava de ouvir o holandês dizer "tu és muita boa e adorei ver-te a passear pelo palco mas cantas muita mal. Eu queria mesmo era dar-te 1, mas infelizmente só me deram dois cartões por isso tenho que dar 9".

Era isso que eu gostava de ouvir neste programa, porque se aquilo continua assim, e conhecendo a TVI como todos a conhecemos, aquela gente toda que é da área de representação curiosamente da ficção nacional da TVI, vai fazer um disco cuja a música de abertura será "We are de worlde, we are de xildrene" e depois lançam-se em carreiras a solo. Não que eu tenha alguma coisa contra carreiras duplas, eu mesma sou uma arquitecta designer que é como quem diz "designer-de-produto/gráfico/interiores/desenhadora/dêem-me-trabalho-por-favor" e sei que uma pessoa tem que ser flexível. Mas não acho normal que a TVI esteja a tentar lançar no ano de 2007, 20 novos cantores acabadinhos de sair da novela da Maria Laurinda, sendo que muitos deles cantam para 1 e não para 10, com a desculpa de ser "Por uma boa causa".