Se não morrer de velhice, a expectativa há-de me matar com certeza.
É muito grave a fase de transição, e eu acho que numa mulher fases de transição só acabam no túmulo, sendo que ainda ninguém nos contou como seria transitar para a morte. Mas supondo que uma vez no túmulo não se transita mais, acho que só mesmo aí é que uma moçoila descansa. Transitamos da infância para a juventude e põe-nos logo a sangrar. Não contente, dá-nos uma doença que começa por se revelar em acne, piorando até à fase jovem adulto que se transforma em muito mau humor, dores, enchaquecas enfim, s.p.m. Depois transitamos do liceu para a faculdade na expectativa de lá se conhecer um belo arquitecto e no fim o único arquitecto que te daria bola foi expulso da reitoria por assinar livros de ponto a mais. Claro está que se correria também o risco de aparecermos em vídeos duvidosos na net se lhe dessemos bola de volta por isso ele até há males que vêm por bem. Tansitamos fora da faculdade e a expectativa de um emprego. Poderia ser simples mas não é porque o que pareceria esperar por um emprego passa a ter muitas outras fases de transição, expectativa pela resposta, expectativa pela entrevista, expectativa pelo e-mail, expectativa pelo emprego.
Não felizes ainda aspectamos pelo o homem da nossa vida, pelas crianças que nos vão levar couro e cabelo, pelo cão que nos fará companhia pela velhice fora, pelo lar de terceira idade, pelo médico de família e a auxiliar do posto de saúde, pela reforma, pela camioneta de excursões onde se vendem edredons e coisas para o enxoval da tua neta que ela nunca irá usar. Na excursão esperamos pelo almoço, pelo pequeno almoço e pela botija de oxigénio. E muitas vezes, apesar do longo tempo de espera ainda temos que nos fazer de difíceis.
Era só isto, espero que me tenham entendido.