E eu fui. Ontem chamaram-me Nazi, inédito contudo algo divertido. Eu sempre gostei muito de piadas nazis, do Alô Alô, de se gozarem os suecos durante a II Guerra, de acusar os alemães de incendiarem a Lapónia quando nesses tempos isso deve ter sido das suas melhores acções, enfim, trivialidades, mas nunca tinha sido centro de uma piada Nazi. Pediram-me cerveja, eu disse que se não estavam sentados só a poderia vender em copos de panástico, eles perguntaram e se bebermos ao balcão eu respondi, será em copos de plástico. És um pouco Nazi, disseram. Talvez, respondi. Eles agradeceram, pagaram e despediram-se com um Heil. Enfim, dias de café. Talvez não tenha dito a muitos de vós, mas faz mais de um mês que sou empregada de balcão de segunda, há quem seja de terceira, há quem seja de primeira. Os meus fortes são, caipirinhas, reposição, capuccinos, sumos de fruta variados, tirar imperiais e manter o balcão com pouca loiça suja. Os meus fracos são atendimento ao público, em geral. As pessoas aborrecem-me. Detesto o pedir de um cafézinho, ah era com adoçante, oh desculpe, esqueci-me mas tb queria um copo de água e assim se foi meia hora do teu dia nos meandros de servir um café a um tipo que acha que por 1 Euro que ele paga por aquele café o empregado que o serve não está a fazer mais que a sua obrigação.
Deixo a dica a todos os clientes chatos por esse mundo fora. 1º, não sou vossa empregada, sou empregada do café onde trabalho, 2º, a escravidão é demodé, 3º ainda que receba ordenado pelos serviços que presto, garanto-vos que não o suficiente para aturar certo tipo de coisas, 4º iva não é uma sigla estranha para gorjeta e todos os empregados daquele café agradecem no final quando lhe deixam alguma, especialmente quando tiveram que procurar o pão com menos sementes, voltar cinco vezes à cozinha com o vosso pedido para ele ficar como vós preferis, levar a água que afinal não era fresca, era natural e depois não era lisa, era com gás, servir-vos o café que era curto, em chávena escaldada, descafeinado, pingado, com leite frio, em chávena grande com adoçante e que depois é derramado, pela mesa, pelo chão, por cima de vós e que alguém, que dá pelo nome de empregado de mesa, tem que ir limpar. Juntando a isso um patrão, ou pior, uma patroa, que eu sei que quase todos os comuns mortais, nos variados tipos de emprego, têm que aturar, espero que comecem a pensar com mais carinho naquela criatura que vos serve nos vossos momentos de lazer, vós, oh burguesia lisbonense.